“A alma respira através do corpo, e o sofrimento, quer comece no corpo ou numa imagem mental, acontece na carne”

António Damásio em O Erro de Descartes

Poderá estar certa a conceptualização da Medicina que negligencia a mente enquanto função do organismo? Que ignora as dimensões humanas da nossa condição enquanto se concentra exclusivamente na fisiologia e na patologia do corpo? Colocadas estas questões, deparamo-nos, na Medicina actual, com uma aparente amputação da natureza humana com o qual os médicos lidam diariamente. Não sigamos por esse caminho e continuemos a trilhar este percurso, sabendo que somos cada vez mais e não caminhamos sós…

A Neurogastrenterologia tem vivido um desenvolvimento acentuado por diversos motivos:

  • os distúrbios cérebro-intestino apresentam uma prevalência alta sendo o principal motivo de procura do gastrenterologista de ambulatório; provocam uma franca diminuição da qualidade de vida dos doentes e elevados custos, directos e indirectos, económicos e sociais.
  • o eixo cérebro-intestino é uma base fisiopatológica relevante em diversas doenças digestivas “não funcionais”
  • o eixo cérebro-intestino parece extravasar as fronteiras da Gastrenterologia havendo cada vez maior e mais robusta evidência do seu envolvimento nas doenças neurodegenerativas, auto-imunes e do tecido conjuntivo.
  • e o novo (ou não tão novo) eixo cérebro-intestino-microbioma está a tornar-se um conceito central na investigação fisiopatológica e terapêutica de diversas patologias digestivas, e não só, que provavelmente estará a dar um salto célere para a prática clínica.

Acreditamos que a Neurogastrenterologia tem adquirido um reconhecimento e uma visibilidade crescentes que se refletirão num papel cada vez mais preponderante na Gastrenterologia.

O Núcleo promoveu durante o biénio 2019-2021 diversas iniciativas inovadoras. Gostaríamos de agradecer ao Dr. Eduardo Pires pela excelência do biénio e pelo quanto o Núcleo floresceu sob a sua liderança. E dirigir também um agradecimento ao Dr. Eduardo Pereira pelo seu enorme contributo na formação dos mais jovens na área da Neurogastrenterologia.

Nesta etapa, pretendemos, como Núcleo da Neurogastrenterologia e Motilidade Digestiva dirigir a nossa acção para 3 grandes eixos:

  • promoção da qualidade clínica assistencial
  • investimento na formação estruturada e baseada no conhecimento
  • criação de caminhos de proximidade na investigação e na comunicação com o doente

Assim, esperamos conseguir dar continuidade ao projecto delineado e acrescentar valor a esta secção especializada nos próximos 2 anos de trabalho.

Por último, gostaríamos ainda de encorajar os jovens e menos jovens membros da SPG que participem proactivamente nas actividades que desenvolvermos e nos façam chegar sugestões de melhoria desta área tão desafiante

Bem hajam!

Ana Célia Caetano